Frei Feliciano e o Gerador de Van der Graaf

Ando lendo um livro muito engraçado: ‘Cinco equações que mudaram o mundo’, de Michael Guillen. Só pra matar a curiosidade, o livro fala da lei da gravitação universal de Newton, da lei da pressão hidrodinâmica de D. Bernoulli, da lei da indução electromagnética de Faraday (lei, não a fórmula matemática que é de Maxwell), a segunda lei da termodinâmica de Clausius e a teoria da relatividade de Einstein. Ainda não acabei, faltam as 2 últimas. Mas o que eu tenho adorado até agora é a história da vida de cada um destes cientistas famosos, o percurso singular que os levou até à sua equação. Gente, a história de Faraday é de longe a mais interessante.

Mas o que eu queria contar aqui é outra história, que eu me lembrei lendo a do Faraday. No colégio Santo António em BH (colégio de franciscanos) eu tive um professor de física francamente extraordinário: Frei Feliciano. Já naquele tempo ele teria quase cerca de 70 anos. Falava esquisito, não só porque os freis naquele colégio eram de origem holandesa, tinha mesmo um defeito de dicção. As nossas aulas de física eram numa espécie de anfiteatro, com mesas de madeira que iam subindo os degraus até ao fundo da sala. Em baixo, a grande mesa do professor (sempre numa bagunça dos diabos) e por trás do quadro uma salita onde ele guardava a sua ‘maquinaria’ para experiências na sala de aula. Nunca vou me esquecer do fabuloso ‘gerador de van der graaf’. Era uma máquina linda, tenho pena de não ter uma foto para mostrar. Não era desses modernos de agora que se carrega num botão e o motorzinho faz gerar a electricidade estática… não, o do Frei Feliciano tinha uma manivela que era preciso rodar para se conseguir o atrito necessário para produção da electricidade. Uma delícia!

O que melhor recordo é a nossa ‘experiência van der graaf’: o frei colocou-nos todos de mãos dadas à volta do gerador. Um aluno tocava numa ponta e o último fechava o circuito. E lá ia ele rodando a manivela, cada vez com mais velocidade, em contínuo, até que não conseguíamos mais manter as mãos fechadas e íamos soltando um a um, até sobrar o último resistente.

O Frei Feliciano era assim, olhava para o mundo com olhos de cientista maluco e de poeta. Tanto foi que no final do ano seguinte correu a notícia de que ele tinha abandonado a ordem franciscana e tinha se casado. Com quase 70 anos! Acho que vindo dele, não foi muito espanto pra ninguém. Assim como também não foi espanto quando, ao fim de 2 anos, ele decidiu que a vida de casado não era pra ele e voltou a dar aulas no colégio. Para bem do nosso ‘van der graaf’.

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  1. #1 by Andrea on 05/05/2011 - 21:03

    Adorei, Ana!
    Vou ler esse livro.
    bj

  2. #2 by Monica on 06/05/2011 - 22:15

    Ah, adoro esse tipo de livro! Já anotei aqui pra prestar atenção da próxima vez que parar na Leitura. O que, naturalmente, não vai demorar nadinha a acontecer! 🙂
    bjk

  3. #3 by ramoscheiosdeamora on 08/05/2011 - 9:46

    Já acabei de ler, vale mesmo a pena! Bjs.

  4. #4 by vanilda on 16/06/2011 - 22:14

    Ana, que prazer está aqui, e logo, logo, me deparei com uma de minhas paixões: livros; anotei os dois para ordem dos que estão por serem lidos, gostei muito das sugestões! Li as crônicas, apreciei ter lido a Monica por aqui. Só ilustrando: também estudei com um padre holandês de 74 anos, casou-se com uma jovem enfermeira de 22 anos; as madres ficaram horrorizadas! professor e conselheiro, imagine! Mas sempre gostei dele e sua posição diferente em nada mudou o meu conceito a seu respeito, um ser humano formidável, competente em suas funções; mas nos anos 197… não se via com tanta leveza sua conduta, como sempre analiso a fragilidade e susceptibilidade humana desde cedo, não me escandalizava com a mesma proporção que outras pessoas. Grande abraço.

    • #5 by ramoscheiosdeamora on 17/06/2011 - 9:41

      Oi, Vanilda! Seja benvinda ao blog! Livros é o que não falta por aqui… Com relação à história do Frei Feliciano, na altura ele se casou com uma senhora de mais de 50 anos, por isso o escândalo não foi por aí. Por mais que eu não ache que a diferença de idade deva ser um impeditivo (meus pais tinham uma diferença de 15 anos), acho que uma diferença de 52 anos é um bocadinho exagerada… Se pensar bem, dá quase pra ser bisavô da menina… Aqui temos um caso parecido, um director futebolístico que anda com uma brasileira, e a diferença de idade é semelhante… faz sempre me lembrar aquela anedota do rapaz que ia se casar com a moça rica e o pai perguntou: ‘é por amor ou por interesse?’, e o rapaz pensou, pensou, pensou, e disse que devia ser por amor, por que interesse nela ele não tinha nenhum… 🙂
      Bjs,
      Ana

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