Archive for category Livros

A Lacuna

Lacuna: espaço vago no interior de um corpo.

A escolha do livro foi por mero acaso: entrei na livraria à procura de que alguma coisa me chamasse a atenção, e chamou, o prémio Orange Prize, que premiou anteriormente a escritora Chimamanda Adichie. E valeu a pena. Em linhas gerais o livro conta a história de Harrison Shepherd, meio americano, meio mexicano, meio cozinheiro, meio escritor, com uma vida dividida entre os 2 países, em grande parte no México passada na companhia de Frida Kahlo, na época da visita de Trotsky à sua casa, e depois nos EUA durante a 2ª guerra e a famosa ‘caça às bruxas’. O livro é todo ficção, contado ora através de cartas, ora através de diário deixado pelo próprio personagem. O que faz o livro assim tão bom? Primeiro, a não utilização do óbvio, o espaço que deixa para o leitor pensar e reflectir, a insinuação no silêncio e nas meias palavras. Depois, a impensável construção da nossa civilização actual, do século em que vivemos, e da sua relação (ou confusão) com a nossa própria identidade.

“A parte mais importante de uma história é aquela que não conhecemos.” Embora o personagem tenha sido vítima toda a sua vida de palavras e ‘acidentes da história’ que tenham modificado o seu destino, sem que ele assim o quisesse, é possível ver aqui centenas de analogias com a nossa vida hoje. Quanta gente à nossa volta, através de palavras e pensamentos, a ditar o nosso comportamento! Quanta crítica voluntária e não desejada, nessa nossa sociedade, ao modo de ser e estar das pessoas! Se observarem os livros de auto-ajuda ou de programação neuro-linguística (sim, nós somos programáveis e reprogramáveis até darmos em doidos) verão que têm todos a mesma linha comum, o mesmo comportamento considerado correcto e aceitável, a mesma definição de ‘inteligência emocional’ a perseguir os 4 cantos do globo. Não seja você mesmo, seja aquilo que a sociedade espera de você. A tolerância termina aí. Acabaram-se os tempos das revoluções e das agitações (que até onde sei, não foram feitas utilizando a assertividade). Chegou o tempo do politicamente correcto, e quem não quiser aderir, é porque é um inadaptado nessa sociedade. Não há margem para a diferença.

Questionei-me ao longo do livro o título… embora lá tenha vários significados, entre eles uma frincha encontrada pelo personagem numa rocha no mar, acho que a lacuna aqui representa sempre a passagem que ele encontrava para fugir àquela sociedade opressora, de forma a consiguir manter-se fiel à sua identidade. Quantos de nós conseguimos fazer isto nos dias que correm?

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Sobre cartas, sociedades e outras coisas

   Há muito tempo não lia um livro tão delicioso: “The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society”, é um livro que conta uma história em forma de cartas. Tudo começa, é claro, com uma carta (!) endereçada à proprietária de um livro, e a partir daí, X escreve a Y, Y a Z, Z a X, e temos toda uma história contada numa rede de correspondências sem fim. Pano de fundo: uma ilha no Canal da Mancha, Guernesey (vejam que lugar mais lindo), final da 2ª guerra mundial, uma sociedade literária. A tarte de casca de batata vem depois.

O que tem de maravilhoso no livro? Primeiro, a mais absoluta das verdades, um livro puxa a outro, que puxa outro e por aí vai. (Meu conhecimento da literatura inglesa aumentou imenso!). Aprendi mais um pouco sobre Charles Lamb, Wilfred Owen, William Wordsworth, entre outros. Mas a delícia da coisa está nas cartas… acredito que as pessoas têm mais coragem de se abrir ao escrever do que ao falar, e no seu estilo britânico, correcto, ‘polite’, discreto, elas vão perguntando as mais indiscretas confidências… Não sei se já disse, mas acredito que em outra vida (se é que tive outras vidas) devo ter sido algo entre Jane Austen e Irmãs Bronté, só isso explica esse meu fascínio por essa maneira de ser britânica tão ‘polite’ e tão romântica…

Há livros que nos modificam, quer porque nos identificamos com a acção ou com os personagens, não importa, sentimos que a partir daí somos um ‘tiquinho’ diferentes. Eu acho que esse livro tem esse dom. A autora conseguiu contar histórias muito bonitas e muito emotivas, sem ser lamechas ou pedante, deitando uma luz viva e acolhedora sobre um período da história cheio de miséria e sofrimento. Porque as coisas ruins passam, mesmo que pareçam durar uma eternidade… Dá-nos vontade de termos a nossa pequena sociedade literária, de trocarmos cartas como no antigamente, de partilharmos um pouquinho daquilo que nos dá prazer nessa vida.

As novas tecnologias tiraram esse prazer calmo das cartas, a espera tornou-se muito penosa para um mundo sem paciência… Mas, como tudo, há que saber tirar o melhor proveito das coisas: embora o facebook seja uma ferramenta da qual todos desconfiamos, tenho de partilhar aqui uma das suas alegrias. Conheci através dele um grupo de amigos com interesses variados (música, cinema, política, literatura), gostos ecléticos e dispersos, mas que de vez em quando lá se reúnem e partilham os seus pontos de vista. Quis o destino que lhe chamassem ‘Gang Cool’, quis as origens que o prato principal fosse por 2 vezes a Alcatra à moda da terceira. E que tal se um dia escrevesse um pequeno livro ‘O Gang Cool e a Alcatra da Terceira’? Aceitam-se cartas (ou emails) com opiniões sobre o mesmo.

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Frei Feliciano e o Gerador de Van der Graaf

Ando lendo um livro muito engraçado: ‘Cinco equações que mudaram o mundo’, de Michael Guillen. Só pra matar a curiosidade, o livro fala da lei da gravitação universal de Newton, da lei da pressão hidrodinâmica de D. Bernoulli, da lei da indução electromagnética de Faraday (lei, não a fórmula matemática que é de Maxwell), a segunda lei da termodinâmica de Clausius e a teoria da relatividade de Einstein. Ainda não acabei, faltam as 2 últimas. Mas o que eu tenho adorado até agora é a história da vida de cada um destes cientistas famosos, o percurso singular que os levou até à sua equação. Gente, a história de Faraday é de longe a mais interessante.

Mas o que eu queria contar aqui é outra história, que eu me lembrei lendo a do Faraday. No colégio Santo António em BH (colégio de franciscanos) eu tive um professor de física francamente extraordinário: Frei Feliciano. Já naquele tempo ele teria quase cerca de 70 anos. Falava esquisito, não só porque os freis naquele colégio eram de origem holandesa, tinha mesmo um defeito de dicção. As nossas aulas de física eram numa espécie de anfiteatro, com mesas de madeira que iam subindo os degraus até ao fundo da sala. Em baixo, a grande mesa do professor (sempre numa bagunça dos diabos) e por trás do quadro uma salita onde ele guardava a sua ‘maquinaria’ para experiências na sala de aula. Nunca vou me esquecer do fabuloso ‘gerador de van der graaf’. Era uma máquina linda, tenho pena de não ter uma foto para mostrar. Não era desses modernos de agora que se carrega num botão e o motorzinho faz gerar a electricidade estática… não, o do Frei Feliciano tinha uma manivela que era preciso rodar para se conseguir o atrito necessário para produção da electricidade. Uma delícia!

O que melhor recordo é a nossa ‘experiência van der graaf’: o frei colocou-nos todos de mãos dadas à volta do gerador. Um aluno tocava numa ponta e o último fechava o circuito. E lá ia ele rodando a manivela, cada vez com mais velocidade, em contínuo, até que não conseguíamos mais manter as mãos fechadas e íamos soltando um a um, até sobrar o último resistente.

O Frei Feliciano era assim, olhava para o mundo com olhos de cientista maluco e de poeta. Tanto foi que no final do ano seguinte correu a notícia de que ele tinha abandonado a ordem franciscana e tinha se casado. Com quase 70 anos! Acho que vindo dele, não foi muito espanto pra ninguém. Assim como também não foi espanto quando, ao fim de 2 anos, ele decidiu que a vida de casado não era pra ele e voltou a dar aulas no colégio. Para bem do nosso ‘van der graaf’.

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Do fim para o começo

“O destino, como todos os dramaturgos, não anuncia as peripécias nem o desfecho. Eles chegam a tempo, até que o pano cai, apagam-se as luzes e os espectadores vão dormir. Nesse gênero há porventura alguma coisa que reformar, e eu proporia, como ensaio, que as peças começassem pelo fim. Otelo mataria a si e a Desdémona, no primeiro acto, os três seguintes seriam dados à ação lenta e decrescente do ciúme, e o último ficaria só com as cenas iniciais da ameaça dos turcos, as explicações de Otelo e Desdémona e o bom conselho do fino Iago: Mete dinheiro na bolsa. Desta manera o espectador acharia no teatro a charada habitual que os periódicos lhe dão, porque os últmos actos explicam o desfecho do primeiro, espécie de conceito, e por outro lado, ia para a cama com uma boa impressão de ternura e de amor:

Ela amou o que me afligira

Eu amei a piedade dela. “


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Expressões Africanas

“What you say is very true and I do not blame you for wanting to bale that water before it rises above the ankle.”

“When two brothers fight a stranger reaps the harvest.”

“We are all men here but when we open our mouths, we know the men from the boys.”  (So true…)

“Our people say that if you thank a man for what he has done he will have strength to do more.”

“I shall sit here until I have seen the head and the tail of this matter.”

“If the rat could no run fast enough, it must make way for the tortoise.”

“Things are always like that. Our eye sees something: we take a stone and aim at it. But the stone rarely succeeds like the eye in hitting the mark.”

“Every lizard lies on its belly, so we cannot tell which has a bellyache.”

“A woman who carries her head on a rigid neck as if she is carrying a pot of water will never live for long with any husband.” (oh oh…)

“When a handshake passes the elbow it becomes another thing.”

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O perfume

 “… Glória se levantou, ela e o vestido se arrastaram mutuamente para o quarto. Incrédula e sonambulenta, arrastou o pente pelo cabelo. Em vão. O desleixo se antecipara fazendo definitivas tranças. Lembrou as palavras de sua mãe: mulher preta livre é a que sabe o que fazer com o seu próprio cabelo. Mas eu, mãe, primeiro, sou mulata. Segundo, nunca soube o que é isso de liberdade. E riu-se: livre? Era palavra que parecia de outra língua….Abriu a gaveta, venceu a emperrada madeira. E segurou o frasco de perfume, antigo, ainda embalado. Estava leve, o líquido já havia evaporado. Justino lhe havia dado o frasco, em inauguração de namoro, ainda ela meninava. Em toda a vida, aquele fora o único presente. Só agora se somava o vestido. Espremeu o vidro do cheiro, a ordenhar as últimas gotas. Perfumei o quê com isto, se perguntou, lançado o frasco no vazio da janela. Nem sei o gosto de um cheiro.”…

“…E ficou a ver Justino se afastando entre a fumarada do salão, tudo se comportando longe. Vezes sem conta ela vira esse afastamento, o marido anonimado entre as neblinas dos comboios….No limiar da porta, Justino ainda virou o rosto e demorou nela um último olhar. Com surpresa, ele viu a inédita lágrima, cintilando na face que ela ocultava. A lágrima é água e só a água lava tristeza. Justino sentiu o tropeço no peito, cinza virando brasa em seu coração. E fechou a noite, a porta decepando aquela breve desordem.’

Mia Couto – Estórias Abensonhadas

Agora me digam, como é que alguém consegue escrever uma prosa assim, que fica parecendo poesia?

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Morre o velho, nasce o novo

Li este livro de uma sentada só. Confesso que a parte que mais gostei foi a da Irlanda, o ‘beber’ foi hilariante. O ‘jogar’ francamente não seduz, e o ‘coiso’ na Tailândia, no final das contas virou mesmo ‘amar’, e disso já o outro livro falava.

Mas fiquei imaginando o que faria se pudesse tirar assim um ano da minha vida e viajar pelo mundo…essas coisas acontecem assim com a gente quando vai chegando o fim de ano, começamos a pensar aonde gostaríamos de ir nos próximos… A primeira conclusão que cheguei é a de que 1 ano fora a viajar é demais. Primeiro porque 4 meses em cada país é um frete, como se diz por aqui. Ao fim de um mês já teria conhecido o que havia para conhecer, e os outros 3 ia levar uma vida que poderia levar em qualquer  outro lado. Então ao invés de um ano, já teria reduzido a minha jornada a 3 meses. E o que faria? O ‘beber’ seduz-me consideravelmente, e sendo adepta incondicional de vinho, teria de escolher entre 2 regiões: Califórnia e Toscana. O melhor é não escolher nenhuma delas, e fazer 15 dias em cada uma. Muitos vão dizer ‘mas porque Califórnia, com tanto lugar no mundo com vinho melhor…’ Na verdade fui influenciada pelo filme ‘Sideways’ que assisti assim de surpresa no avião. A maneira como ele descreve o vinho é verdadeira poesia. Deu vontade, pronto. Entrou nos planos.  A toscana já tem a ver com outro filme, ‘Cartas para Julieta’, que eu obriguei a Luisa a ver comigo e resisti bravamente ao pranto, com lágrimas contidas nos olhos. Não há como resistir a histórias de amor que persistem à passagem de 50 anos do nosso tempo!  E daí, ficou como roteiro vinícola também.

Continuando, o meu 2º mês seria em terras de sua majestade, a Rainha da Inglaterra. E tudo porque tenho uma vontade louca de fazer o roteiro de Jane Austen, ou seja, percorrer os ‘shire’ que ela tanto descreve nos seus livros. Days of pure Jane Austen indulgenceVocês acham que é minha imaginação? Pura verdade, verifiquem aí o site. Percorrer lugares onde decorreram romances como ‘Sense and Sensibilitiy’ e ‘Pride and Prejudice’… Este está na minha lista do ‘não-posso-morrer-de-jeito-nenhum-antes-de-fazer’. Vou chamar esta etapa de ‘romancear’. É verbo inventado sim, mas é o que melhor se aplica naquilo que se faz num tour destes.

Aí o terceiro é mais complicado…talvez 3 meses nem fossem demais. Tem a ver com um desejo muuuito antigo de ir a África. Mas não é para visitar lugares bonitos ou fazer safaris fotográficos, o que eu tenho vontade mesmo é de ir aos lugares mais perdidos, aqueles que pouca gente põe lá os pés, e viver o dia a dia com as pessoas que lá estão. Talvez seja meio pueril, a princípio eu achar que posso contribuir de alguma forma para quem já vive lá há milhares de anos, mas acho que a minha viagem é mais egoísta do que isso, eu acho que poderia aprender algo ali que não aprenderia em mais lugar algum do mundo. Já dei o primeiro passo…sou madrinha de uma escola que fica em São Pedro de Manhunha, em Moçambique. Fiz tudo através da helpo. Recebo fotografia da turma e evolução dos seus progressos como recompensa. Um dia quero ir visitá-los pessoalmente. Acho que posso chamar essa parte, sem dúvida, de ‘partilhar’. E como partilhar é muito bom, aceitam-se candidatos para tão bravas jornadas…

Sejam quais forem os vossos desejos, que tenham um 2011 cheio de realizações!

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